Abril 8, 2024

Gestão de espaços verdes: Regra 10-20-30 de Santamour como guia


No mundo da gestão de espaços verdes, lutamos por uma população de árvores ambientalmente correta e sustentável. Um objectivo que à primeira vista parece óbvio, especialmente numa época em que a biodiversidade está no topo da agenda. No entanto, ainda vemos muitas monoculturas no ambiente urbano. Este é um dos maiores desafios no que diz respeito aos planos de plantação num período de alterações climáticas, ambientes pavimentados e rápida propagação de doenças através da globalização. Neste artigo analisamos mais de perto os critérios para uma população de árvores ecologicamente significativa, prestando especial atenção à regra 10-20-30 proposta por Santamour como diretriz para gestores de parques municipais e projetistas de espaços verdes.


Monoculturas e riscos ecológicos

Existe um risco se uma espécie de árvore estiver presente em grande número. A ameaça de contaminação entre árvores é maior sempre que árvores da mesma espécie estão mais próximas umas das outras e, se afetadas, toda uma estrutura pode ser perdida. Há anos que o carvalho é plantado em massa por ser a árvore autóctone com maior biodiversidade. Insetos, ácaros, diversos tipos de mariposas, algas, fungos e musgos encontram abrigo e alimento nesta espécie. Bom para a biodiversidade, mas graças ao cultivo em grande escala, enfrentamos novos desafios. Os carvalhos comuns são plantas hospedeiras da mariposa processionária do carvalho e do besouro da casca do carvalho, e com o plantio de avenidas inteiras de carvalhos o nível de infestação desses insetos é alto. Aliás, isto não se aplica apenas aos carvalhos; outras populações homogêneas de árvores também são suscetíveis a doenças e pragas. Todos nós estamos familiarizados, por exemplo, com a ash dieback, o cancro hemorrágico do castanheiro-da-índia e a doença da casca fuliginosa dos Acers. Por esta razão, é desejável que os gestores dos parques municipais se esforcem pela diversidade dentro da população de árvores com vista à propagação do risco.


Regra 10-20-30 como diretriz de diversidade proposta por Santamrou

Uma população diversificada de árvores compreende árvores de diferentes espécies, mas também de diferentes tamanhos e idades. Não só oferece benefícios estéticos, mas também aumenta a resistência a doenças e pragas. A regra 10-20-30 proposta pelo especialista florestal Santamour (1990 Dr. F. Santamour) é uma orientação prática amplamente utilizada para salvaguardar esta diversidade. Os números referem-se à percentagem máxima de uma única família (30%), género (20%) ou espécie (10%) que a população arbórea deve incluir, minimizando assim o risco. Se tomarmos o exemplo do carvalho comum, a aplicação desta regra significa especificamente: no máximo 10% da população arbórea deve ser da mesma espécie (Quercus robur, carvalho comum) e no máximo 20% deve ser do mesmo género (Quercus, carvalho ) e no máximo 30% devem ser da mesma família (Fagaceae, família das faias). Por isso é importante ter uma ideia clara da população arbórea do município e identificar a que espécie, gênero ou família pertencem. Essa diretriz não deve ser aplicada apenas como média para todo um município ou bairro, mas também em menor escala em avenidas e matagais.

Ambientes desafiadores

Deve-se notar que existem certos ambientes (urbanos) que são extremamente desafiadores e nos quais apenas algumas espécies de árvores podem sobreviver. Quanto mais desafiador for o clima, menos espécies de árvores poderão sobreviver. Nesse caso, não deve haver compromisso quanto às espécies fortes utilizadas, independentemente de a regra 10-20-30 ser observada ou não. Por outro lado, no contexto holandês também existem estudos que seguem a linha de diversidade mais rigorosa 5-10-20 no que diz respeito ao planeamento de novos espaços públicos. Aqui temos 5% da mesma espécie, 10% do mesmo gênero e 20% da mesma família. Isto conduzirá, sem dúvida, a uma maior diversidade e, portanto, à resiliência para situações com boas condições de cultivo. Também ao nível das espécies, pode ser introduzida uma diversidade ainda maior. Por exemplo, utilizando mudas geneticamente diversas em comparação com clones e cultivares que partilham semelhança genética e porta-enxertos, o que por sua vez pode exercer uma influência sobre isto. Por outro lado, clones e cultivares comprovadamente fortes (por exemplo, olmos, acer e limas) também podem ser a melhor opção num ambiente desafiador.


Uma população de árvores ecologicamente significativa

Os municípios desempenham um papel crucial na criação de uma população de árvores ecologicamente significativa. Para conseguir isso, é essencial uma lista personalizada de plantas disponíveis. Uma lista de árvores que, por um lado, tem em consideração factores locais como o tipo de solo, o nível das águas subterrâneas, a carga do vento, a resistência ao sal das estradas, etc. e, por outro lado, cumpre o requisito de diversidade. A sequência especificada é importante aqui, uma vez que uma árvore deve primeiro ser capaz de funcionar num determinado local antes de poder fazer parte de uma população de árvores saudável e diversificada. Uma população de árvores mais diversificada também aumenta as fontes alternativas de alimento dos predadores naturais, o que reduzirá a população e o nível de infestação. Além disso, a diversidade garante que a perda de uma espécie específica de árvore tenha menos impacto na paisagem urbana e que os serviços ecossistémicos da população arbórea sejam mantidos.

Uma população diversificada de árvores para uma cidade sustentável

Uma população diversificada de árvores não é uma tendência, mas uma necessidade. Especialmente numa época em que as alterações climáticas e as novas ameaças, como doenças e pragas, representam um desafio para os nossos espaços verdes. Os gestores de parques urbanos e os designers de espaços verdes desempenham um papel fundamental na realização de uma paisagem urbana ecologicamente equilibrada e devem proceder usando o seu bom senso. A regra 10-20-30 proposta por Santamour fornece uma bússola valiosa para alcançar esta diversidade e salvaguardar a saúde da população arbórea. Em algumas situações, uma ambiciosa diretriz 5-10-20 pode até ser adotada como ponto de partida. É hora de investir na gestão sustentável dos espaços verdes e de lutar por um ambiente onde o verde não seja apenas bonito, mas também resiliente, biodiverso e saudável.

Artigo escrito por Thijs Dolders. Tradução de Marco Nereu.

Para informações de tipos de plantas e consulta de detalhes das mesmas, pode visitar a plataforma TreeEbb onde pode efectuar uma pesquisa por familia, genero ou especie de plantas, entre outras caracteristicas das mesmas.