Abril 30, 2026
Posição sobre o PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência
30 de Abril de 2026
A Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas (APAP) reconhece a relevância estratégica do PTRR enquanto instrumento estruturante de resposta a eventos extremos e de reforço da resiliência nacional.
O plano evidencia uma ambição significativa na mobilização de recursos e na articulação entre recuperação, protecção e resposta, assumindo correctamente a necessidade de uma abordagem integrada e de longo prazo face aos desafios climáticos e territoriais identificados.
Todavia, da análise realizada sob a óptica da Arquitectura Paisagista, da Paisagem e do Ordenamento do Território, identificam-se lacunas estruturais que condicionam a sua eficácia enquanto instrumento de transformação territorial.
Paisagem como elemento ausente
O PTRR não incorpora a paisagem enquanto conceito operativo e estruturante, limitando-se a abordagens sectoriais fragmentadas. Esta ausência compromete a capacidade de integração entre sistemas ecológicos, infra-estruturas e ocupação humana.
Fragmentação e insuficiente coerência territorial
Apesar do reconhecimento das vulnerabilidades territoriais, o plano não assegura uma articulação efectiva com os instrumentos de gestão territorial, nem estabelece uma leitura multiescalar coerente do território.
Predomínio de soluções técnicas convencionais (“Cinzentas”)
Verifica-se uma prevalência de soluções de engenharia pesada, com insuficiente valorização de soluções baseadas na natureza, fundamentais para uma adaptação sustentável e de longo prazo.
Gestão do risco sem transformação do território
O enfoque no mapeamento de riscos não é acompanhado por estratégias de transformação territorial, limitando a capacidade de adaptação efectiva dos territórios mais vulneráveis.
Dimensão ecológica insuficientemente estruturada
Embora o diagnóstico ambiental seja consistente, as medidas propostas não configuram um programa integrado de restauro ecológico nem asseguram a conectividade dos sistemas naturais.
Governança e interdisciplinaridade
O modelo de governação não explicita a necessidade de equipas multidisciplinares que integrem a Arquitectura Paisagista enquanto disciplina essencial à qualificação do território.
RECOMENDAÇÕES:
A APAP recomenda:
- A integração da paisagem como eixo estruturante transversal do PTRR;
- A adopção prioritária de Soluções Baseadas na Natureza;
- A criação de um Programa Nacional de Restauro Ecológico;
- A articulação vinculativa com os Instrumentos de Gestão Territorial;
- A introdução de estratégias de transformação espacial em áreas de risco;
- A integração obrigatória de Arquitectos Paisagistas nas equipas técnicas;
- O desenvolvimento de infra-estrutura verde à escala nacional e municipal.
O PTRR constitui uma oportunidade histórica para reconfigurar o território nacional face aos desafios climáticos e sistémicos. Sem a integração plena da paisagem enquanto matriz estruturante, essa oportunidade corre o risco de se traduzir numa resposta predominantemente reactiva, tecnocrática e sectorial. A incorporação das recomendações apresentadas permitirá transformar o PTRR num verdadeiro instrumento de resiliência territorial integrada, alinhado com as melhores práticas europeias e com os princípios da Arquitectura Paisagista.
ANEXO
PROBLEMAS DETECTADOS / PROPOSTAS PRECONIZADAS
1. Introdução de um eixo estruturante “Paisagem”
Problema: A paisagem não é tratada como sistema estruturante.
Proposta: Incluir um eixo transversal “Paisagem e Infraestrutura Verde”, com objectivos, indicadores e financiamento próprio.
Conteúdo mínimo a acrescentar:
- Definição de Infraestrutura Verde Nacional (multiescalar);
- Integração com corredores ecológicos, REN, RAN e sistemas hídricos;
- Articulação com adaptação climática.
2. Vinculação aos Instrumentos de Gestão Territorial (IGT)
Problema: Fraca articulação com PDM, PROT, POOC, PROF.
Proposta: Tornar obrigatória a compatibilização das medidas do PTRR com os IGT em vigor e revisão destes quando necessário.
Acrescentar:
- Cláusula de conformidade territorial;
- Mecanismo de integração vinculativa;
- Calendarização de ajustamentos dos PDM.
3. Soluções Baseadas na Natureza (NbS) como prioridade
Problema: Predomínio de soluções “cinzentas”.
Proposta: Estabelecer prioridade hierárquica: NbS → soluções híbridas → engenharia pesada.
Aplicações:
- Litoral: reforço dunar, recuo estratégico;
- Bacias hidrográficas: renaturalização;
- Urbano: drenagem natural, solos permeáveis.
4. Programa Nacional de Restauro Ecológico
Problema: Intervenções dispersas e reactivas.
Redline proposta: Criar programa estruturado de restauro ecológico com escala territorial.
Incluir:
- Linhas de água e zonas ripícolas;
- Sistemas dunares e costeiros;
- Paisagens agro-silvo-pastoris;
- Controlo de invasoras.
5. Desenho da paisagem florestal
Problema: Continuidade do modelo florestal vulnerável.
Proposta: Introduzir planeamento de mosaicos resilientes à escala da paisagem.
Medidas:
- Diversificação estrutural e funcional;
- Quebras de continuidade combustível;
- Integração com usos agrícolas e pastorícia.
6. Gestão do risco com transformação territorial
Problema: Mapeamento sem projecto.
Proposta: Associar mapeamento de risco a estratégias de transformação espacial.
Exemplos:
- Recuo planeado em zonas costeiras;
- Desocupação de áreas inundáveis;
- Reconversão de usos incompatíveis.
7. Infra-estrutura Verde Urbana obrigatória
Problema: Falta de integração urbana.
Proposta: Exigir planos municipais de infra-estrutura verde integrados nos PDM.
Componentes:
- Continuidade ecológica urbana;
- Gestão de águas pluviais;
- Mitigação de ilhas de calor.
8. Governança e equipas multidisciplinares
Problema: Ausência do projecto de paisagem na execução.
Proposta: Tornar obrigatória a integração de Arquitectos Paisagistas nas equipas.
9. Indicadores de qualidade da paisagem
Problema: Avaliação centrada em outputs físicos.
Proposta: Introduzir indicadores qualitativos e ecológicos.
Exemplos:
- Conectividade ecológica;
- Permeabilidade do solo;
- Qualidade perceptiva da paisagem.
10. Participação e percepção da paisagem
Problema: Participação pouco estruturada.
Proposta: Criar mecanismos formais de participação pública na avaliação da paisagem.



