Abril 21, 2026

Discurso de Fernando Santos Pessoa, no seu doutoramento honoris causa na Universidade do Algarve

Abril 2026

Esta cerimónia dá-me a oportunidade para falar, mais uma vez e agora neste ambiente privilegiado da Universidade, sobre a Arquitectura Paisagista.

A pressão desordenada sobre os territórios e os seus recursos ameaça seriamente, um pouco em todo o mundo, a perenidade dos ecossistemas – e a Arquitectura Paisagista torna-se cada vez mais o perfil académico que dá a formação holística que permite enfrentar melhor um tal estado de coisas. O arquitecto paisagista não é apenas um jardineiro diplomado, a sua intervenção implica a utilização dos instrumentos essenciais para que o território funcione equilibrado e que são a essência do Ordenamento Paisagístico.

Desde a primeira geração de arquitectos paisagistas que a nossa implantação nos actos de intervenção no espaço biofísico tem sido um caminho de progressivo reconhecimento da importância dessa intervenção.

A Arquitectura Paisagista é uma actividade quase tão antiga como a sedentarização do homem.

Na verdade, pode ler-se em “A Histroy of Garden Art” da ilustre historiadora Marie Louise Gotheim que, quando se iniciou a sedentarização, em volta da gruta ou da cabana rodeava-se o pedaço de terreno com paus e ramos, e, nesse espaço, cultivavam-se as primeiras plantas domesticadas, escolhendo cada agregado as espécies que mais lhe agradavam – quer dizer, o jardim ou o horto antecederam a grande exploração agrícola que surgiria mais tarde.

Quando agora se fala da Arquitectura Paisagista como profissão, trata-se da arte da paisagem, apurada nos últimos séculos, tanto na Europa como nos outros continentes.

Na verdade, existe um contínuo de pensamento nos arquitectos paisagistas para lá das diferentes características do país e da cultura a que pertencem e isso define, realmente, uma “escola” – a escola paisagística. Gosto de insistir no seguinte facto: quando, em meados da década de 60 do século passado, foi publicado com grande êxito o “Design with Nature” de Yan Mcharg, também foi apresentado, na mesma altura, em Portugal, o “Plano de Ordenamento Preliminar do Algarve”, executado pelos colegas António Viana Barreto, Albano Castelo Branco e Álvaro Dentinho, com os mesmos princípios e a mesma metodologia de Ordenamento Paisagístico mencionados naquele livro e que é, repete-se, a principal ferramenta da nossa profissão.

O Prof. Francisco Caldeira Cabral ensinava que esta profissão é ”a arte de ordenar a paisagem em relação ao homem” – quer dizer, saber utilizar os ecossistemas em benefício do homem sem alterar a sua perenidade. E, numa conferência em 1956, ele também escreveu: “A arquitectura paisagista procura realizar, em cada momento, com a maior perfeição, a paisagem humanizada.”

Para a Arquitectura Paisagista, há dois conceitos basilares que fundamentam a sua intervenção e que são: o território e a paisagem.

Um território é o espaço físico concreto e definido com as suas características próprias. É nos territórios que a Natureza cumpre a sua função de suporte da Vida. Os territórios existirão sempre, com ou sem a presença do homem – esta é uma certeza em que pouco se pensa, mas que dá bem a ideia da nossa pequenez face à grandeza do planeta.

Já a paisagem, reafirmo, é o resultado da acção do ser humano sobre o território. Como definiu Ilídio de Araújo: O vocábulo paisagem identifica todo o conteúdo material e fenomenal que, integrado num compartimento do território e por uma determinada ordem, o caracteriza e distingue de outros compartimentos.

Também Gonçalo Ribeiro Telles escreveu: “A construção da paisagem tem de ter em consideração o desenrolar do processo civilizacional, iniciado a partir da organização dos espaços com o fim de satisfazer as necessidades primárias da sociedade”.

O Homem apareceu há relativamente pouco tempo em termos da sequência da Evolução, mas a sua acção foi indiscutivelmente mais determinante e rápida para alterar a integridade original dos territórios do que qualquer outra espécie de ser vivo.

Foi essa capacidade de intervenção que possibilitou aos seres humanos não só adaptarem-se às condições do meio, como alterarem essas condições a seu favor.

E são três as componentes que se impõem quando o Homem intervém num dado território: a Natureza, o espaço e o tempo.

Das componentes do meio que o Homem enfrentou – e terá de enfrentar sempre – a primeira é a Natureza: na mão do homem, repousa a condução dos elementos naturais por forma a tirar deles o maior proveito – daí a construção das paisagens que se foram organizando em todos os lugares onde o ser humano conseguiu fixar-se temporária ou permanentemente.

A Natureza foi, pois, o primeiro factor que se enfrenta e foi extraordinária a capacidade dos povos para se adaptarem aos diferentes obstáculos que a Natureza lhes apresentava.

Sempre que o homem interveio dentro dos limites de regeneração própria dos recursos naturais, o equilíbrio para-climácico e a dinâmica dos ecossistemas deram lugar a novos equilíbrios e novos ecossistemas de substituição que possibilitaram a continuação da vida – um dos exemplos clássicos é o do montado alentejano; mas, quando os limites da renovação natural forem desrespeitados de forma grave e em escala relevante, a vida retrocede.

Alguns dos mais graves atentados aos limites da Natureza tiveram lugar no nosso tempo, quando já havia plena consciência das limitações naturais. Por exemplo, quando se visita o Mar de Aral, no Uzbequistão, transmite-se-nos uma sensação de grande constrangimento pois, sobre a imensa extensão que era o fundo agora seco daquele mar, quase extinto, avistamos as carcaças de barcos a apodrecerem, situação criada pela prática duma agricultura intensiva de regadio em grande escala e para a qual foram represados dois rios que abasteciam o Mar de Aral: os solos da imensa planície, empobrecidos pela prática daquele tipo de agricultura, estão hoje gretados e abandonados, tendo conduzido muitos milhares de camponeses à pobreza. E quem promoveu aquela agricultura abusiva foi-se embora e deixou apenas o descalabro. É sempre assim…

A segunda componente que o Homem enfrenta é o espaço; a paisagem foi sempre o espaço das memórias colectivas, cada comunidade investindo a sabedoria recebida das gerações anteriores, mas nunca impedindo que uma inovação cultural como a alteração das ferramentas ou a introdução de novas culturas venham a ser absorvidos numa paisagem antiga e tradicional. Lembremos, por exemplo, a transformação da paisagem minhota no século XIX, posta em destaque por Ilídio de Araújo, aquando da introdução do milho, que criou uma nova dimensão dos socalcos e dos caminhos rurais de acesso às propriedades, mas não alterou a beleza rústica e o equilíbrio das paisagens minhotas.

A consciência individual e colectiva dos agregados humanos é marcada fortemente pelas características do espaço em que essa comunidade se movimenta. A organização mental quanto à concepção do espaço dos habitantes dos dramáticos vales e montanhas dos Himalaias é muito diferente da dos tuaregues do Sahara ou dos povos das estepes euroasiáticas.

A modelação do espaço ocorreu, pois, sempre, desde que o Homem começou a intervir, quando criou o seu primeiro “quintal” vedado por uma qualquer sebe.

Por fim, a terceira componente é o tempo, a variável que se impõe aos sistemas que se instalaram nos territórios permitindo-lhes a evolução. O tempo interfere em todos os factores que afectam os ecossistemas e é, como bem vincou Marguerite Youcenar, o “grande escultor”.

Já vimos nas paisagens que o homem constrói, que ele tende a desenvolver acções que procuram reencaminhar os ecossistemas no sentido que mais o favoreça, e foi com o tempo que os homens aprenderam a lidar com os territórios, O tempo influencia decisivamente as fases da vida, nas estações do ano, no crescimento e desenvolvimento dos indivíduos e dos seus conjuntos sociais, na caducidade das plantas, na floração, na frutificação – portanto as variações do tempo foram sempre as balizas para a imaginação e a intervenção consciente do ser humano.

Por isso, a sabedoria dos povos que habitam há muito num território deve ser tida em conta por quem nele vai intervir: o saber de experiência feito é uma realidade que nós comprovamos, quantas vezes dolorosamente, nos erros que se cometem por intervenções apressados. O arquitecto paisagista é também um construtor de paisagens e sobre ele recai, muito especialmente, o que acima se disse.

O conceito de paisagem já foi muito discutido, consoante a formação cultural e/ou técnica de quem se debruça sobre ele.

Para o arquitecto paisagista, a paisagem é um conceito global e complexo, intervir nela deve ter por base o conhecimento científico dos valores em presença e visando encontrar a beleza pelo domínio da arte,

Devemos reconhecer que o mundo foi sendo transformado pelas actividades humanas conforme as bases culturais das comunidades em cada território. Assim, no Génesis judaico-cristão é dito ao homem “…enchei a terra e sujeitai-a. dominai sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam pela Terra”. De forma diferente, no Oriente, o Buda ensinou “…que todos os seres vivos estejam em segurança e em paz, os seres vivos fortes e os fracos, grandes ou pequenos, visíveis ou invisíveis, próximos ou distantes, já nascidos ou ainda por nascer”.

São assim duas concepções opostas que induzem os seres humanos a intervir no território com propósitos diferentes.

Também as diferenças eco-geográficas dos lugares que os povos habitam são determinantes para a forma como eles encaram a Natureza e a construção das paisagens.

Baixos-relevos e gravuras sumérias e assírias já representam a paisagem dominada pelo homem como são os fragmentos que mostram os jardins do rei Gudea ou os de Assurbanipal; e nos frescos romanos, como os de Pompeia, a paisagem pintada é a dos jardins e das flores cultivadas, com o intuito de criar ambientes interiores aprazíveis.

No fundo do subconsciente das gentes que em todas as latitudes e geografias foram modelando os territórios, existiam e existem ideias e modelos, desde o alvor da Consciência, que se transmitiram geração após geração.

Não me vou aqui alongar em especulações sobre as questões do belo e do sublime, apenas as afloro porque também influenciam o domínio da Arquitectura Paisagista.

O belo não é apenas o agradável, dependendo das sensações que os sentidos nos fazem chegar, daí que se pode partilhar a ideia de que o que é belo é susceptível de variar conforme a mentalidade, o gosto e a sensibilidade de cada observador. É por isso que uns acham belo o deserto do Sahara que para outros será detestável, que uns se extasiam com as planuras alentejanas que são desagradáveis por outros que se maravilham com os verdes intensos e densos dos terraços minhotos. Muitos gostam e ficam empolgados com uma sinfonia de Beethoven e muitos outros nem por isso….

Em algumas culturas orientais, a Natureza apresenta um carácter sagrado e atrai a devoção das pessoas pelo que, por exemplo, a pintura chinesa ou japonesa figura atmosferas características, com as grandes árvores retorcidas pela idade e pelas intempéries, as montanhas, os grandes rochedos, os nevoeiros que criam ambientes irreais. Já no ocidente, a paisagem pintada apresentou sempre uma Natureza tratada pelo homem, pois a Natureza selvagem causava sentimentos desagradáveis.

Só a partir do Renascimento a pintura passou a dar expressão à paisagem, até aí aparecia como fundo das figuras sagradas pintadas no primeiro plano.

Kenneth Clark, famoso Historiador de Arte britânico, escreveu que a pintura da paisagem marca as fases da assunção ocidental de uma Natureza dominada.

Na nossa concepção como arquitectos paisagistas, a paisagem que contemplamos, para além dos aspectos estéticos, afectivos e contemplativos, transmite-nos outras informações de carácter técnico. Conseguimos perceber a geomorfologia que dá as grandes formas duma panorâmica e sabemos ver nessas formas a natureza litológica inerente, diferente se estamos na presença de calcários, de granitos ou de xistos. Sabemos entender também se a região é árida ou fresca e húmida, se é dominada por florestas e qual o tipo de arvoredo dominante, o que nos leva a ajuizar da fertilidade existente pelo quadro que se nos depara – se existe mosaico de culturas e se a compartimentação está ou não adequada naquele meio, etc. Ficamos com a ideia da biodiversidade da paisagem que observamos.

Quer dizer, para nós, arquitectos paisagistas, o conceito de paisagem amplia-se muito para lá da sua componente visual meramente estética.

As paisagens são, portanto, o repositório da acção, ao longo das gerações, de pastores, lenhadores, agricultores, pedreiros e artesãos, de ontem e de hoje, sendo agentes dos processos produtivos, foram, sem disso terem consciência, os escultores da Natureza e do espaço – através do tempo.

Agora para finalizar esta minha intervenção: a actividade dos arquitectos paisagistas deve, pois, visar a utilização racional dos recursos com vista ao desenvolvimento sustentável, encarando a paisagem de forma global.

Foi o que nos deixou escrito Gonçalo Ribeiro Telles: “A paisagem do futuro tem de ser entendida duma forma global e transdisciplinar, porque a casa – o eco – onde será possível responder ao futuro, constitui uma unidade equilibrada e dinâmica”.

As sucessivas calamidades que caíram sobre nós , como as grandes cheias de 1967, e as de 1984, revelaram o estado desordenado das paisagens afectadas, e foram os arquitectos paisagistas a propor soluções; mas as recentes tempestades deste ano voltaram a mostrar que continuamos a ser um Pais desordenado – não se aprendeu nada! Não basta fazer canais subterrâneos e outras obras pesadas de engenharia, para conter as cheias – o fundamental – mas que dá menos nas vistas – são práticas de Arquitectura Paisagista, é tratar a montante a infiltração nas cabeceiras das linhas de água, o desimpedimento de taludes e leitos de cheia, a criação de amplos espaços verdes que servem para absorção e retenção de caudais, etc. São intervenções que custam menos dinheiro, só que também são menos do agrado dos políticos.

Posto isto, devemos fazer todos os esforços para dar a devida importância à Arquitectura Paisagista, como ainda há dias foi bem referido aquando da comemoração dos 50 anos de APAP.

Os primeiros arquitectos paisagistas portugueses lutaram, com competência e engenho, para implantar a nossa profissão e, por isso, o ensino da nossa formação nas Universidades onde ele se processa terá sempre de honrar, nos alunos que saem licenciados, a qualidade das gerações anteriores,

Sejamos sempre dignos dos colegas que abriram o nosso caminho e que começaram a fazer da Arquitectura Paisagista a ferramenta essencial para um futuro equilibrado da nossa terra.

Muito obrigado pela atenção que me dispensaram.