Maio 5, 2026
POSIÇÃO da APAP para PARTICIPA.PT sobre o PRO-RIOS 2030
POSIÇÃO da APAP para PARTICIPA.PT
PRO-RIOS 2030 – Programa de Restauro Ecológico de Rios e Ribeiras
PREAMBULO
Restaurar rios não chega: é preciso desenhar a paisagem
Portugal deu um passo importante com o lançamento do PRO-RIOS 2030. Num país marcado por eventos extremos, cheias recorrentes e degradação de ecossistemas, apostar no restauro ecológico dos rios é uma decisão acertada e necessária. Mas há uma questão recorrente que importa colocar: queremos apenas restaurar rios — ou queremos qualificar o território? Os rios não são apenas linhas de água, são estruturas vivas que organizam a paisagem, moldam cidades, suportam biodiversidade e constroem identidade. Intervir num rio é sempre intervir no território.
O PRO-RIOS reconhece a importância de soluções baseadas na natureza, da recuperação de galerias ripícolas e da restituição de dinâmicas fluviais, pelo que se trata de uma mudança de paradigma face há décadas de engenharia pesada e artificialização dos cursos de água. Não obstante, subsiste uma lacuna relevante: a ausência de uma abordagem explícita de paisagem. Sem essa dimensão, o risco é claro, pois podemos ter intervenções tecnicamente correctas do ponto de vista hidráulico ou ecológico, mas desarticuladas, fragmentadas e desligadas das comunidades. Podemos restaurar funções, mas perder coerência territorial.
A Arquitectura Paisagista existe precisamente para responder a esta complexidade pois:
- Integra ecologia, desenho, cultura e uso;
- Traduz processos naturais em espaços vividos;
- Liga ciência e território.
Num programa desta escala — 1 500 km de rios até 2030 — não basta intervir, torna-se imperativo desenhar, articular, estruturar. Isto implica integrar o PRO-RIOS nos instrumentos de ordenamento do território, garantir continuidade espacial e assumir os rios como infra-estruturas verdes estruturantes. Implica também reconhecer que o sucesso não se mede apenas em quilómetros intervencionados, mas na qualidade dos espaços criados, na sua apropriação pelas comunidades e na sua capacidade de gerar valor ambiental e territorial.
O PRO-RIOS é uma oportunidade histórica – poderá transformar a relação do país com os seus rios. Para isso, é essencial garantir que o restauro ecológico seja também um projecto de paisagem. Restaurar rios não basta – é preciso desenhar o território.
1. ENQUADRAMENTO
A Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas (APAP) reconhece o PRO-RIOS 2030 como um instrumento estratégico de elevada relevância para:
- a recuperação dos ecossistemas fluviais
- a adaptação às alterações climáticas
- a valorização territorial e paisagística
- a segurança de pessoas e bens
O programa traduz uma mudança de paradigma ao privilegiar soluções baseadas na natureza, alinhadas com o Regulamento Europeu do Restauro da Natureza e com os instrumentos nacionais de gestão hídrica.
2. RECONHECIMENTO POSITIVO
A APAP destaca como particularmente relevantes:
a) Abordagem integrada
O PRO-RIOS articula dimensões:
- ecológicas
- hidráulicas
- territoriais
- sociais
b) Foco no restauro ecológico
A valorização de:
- galerias ripícolas
- conectividade fluvial
- leitos de cheia
- zonas húmidas
c) Escala nacional e ambição
- Meta de 1 500 km intervencionados até 2030
- Integração de 316 intervenções identificadas
d) Integração com políticas europeias
- Regulamento (UE) 2024/1991
- Directiva Quadro da Água
- Estratégias de adaptação climática
3. QUESTÕES CRÍTICAS IDENTIFICADAS
Apesar da sua relevância, a APAP considera que o PRO-RIOS apresenta lacunas estruturais que importa corrigir:
3.1. Ausência de reconhecimento explícito da Arquitectura Paisagista
O programa:
- não identifica os Arquitectos Paisagistas como actores-chave
- não define equipas multidisciplinares tipo
- não explicita competências em desenho e planeamento da paisagem
Dado que as intervenções incidem directamente sobre:
- estrutura ecológica
- espaço público
- sistemas territoriais
esta ausência constitui uma fragilidade técnica e institucional.
3.2. Redução da paisagem à dimensão biofísica
A paisagem é tratada sobretudo como:
- sistema ecológico
- suporte hidromorfológico
Fica subvalorizada enquanto:
- estrutura territorial contínua
- património cultural e identitário
- suporte de usos e apropriação social
3.3. Insuficiente articulação com o Ordenamento do Território
O programa não explicita a sua integração com:
- Planos Directores Municipais (PDM)
- Estruturas Ecológicas Municipais
- Programas Regionais de Ordenamento do Território
Esta lacuna compromete:
- a coerência espacial
- a continuidade das intervenções
- a eficácia a médio e longo prazo
3.4. Risco de fragmentação (“projectização”)
A abordagem baseada em múltiplas intervenções:
- pode gerar descontinuidade ecológica
- não assegura leitura de sistema de paisagem
- dificulta a construção de corredores funcionais
3.5. Predominância de abordagem sectorial
Verifica-se uma tendência para:
- soluções técnico-hidráulicas
- leitura sectorial dos sistemas fluviais
em detrimento de:
- abordagem paisagística integrada
- desenho territorial
4. POSIÇÃO DA APAP
A APAP considera que o sucesso do PRO-RIOS depende de uma abordagem que integre plenamente a Arquitectura Paisagista enquanto disciplina estruturante na concepção, planeamento, execução e gestão das intervenções em sistemas fluviais.
5. RECOMENDAÇÕES
5.1. Reconhecimento institucional
- Inclusão explícita dos Arquitectos Paisagistas:
- nas equipas técnicas
- na coordenação de projectos de restauro
- Definição de perfis profissionais e competências
5.2. Integração no Ordenamento do Território
- Articulação obrigatória com:
- PDM
- Estruturas Ecológicas Municipais
- Tradução das intervenções em:
- condicionantes de uso do solo
- instrumentos regulamentares
5.3. Abordagem de paisagem
- Considerar os rios como:
- infra-estruturas verdes estruturantes
- eixos de organização territorial
- Promover:
- continuidade ecológica e espacial
- coerência de desenho
- integração urbano-rural
5.4. Qualidade do projecto
- Valorização do projecto de arquitectura paisagista como instrumento central
- Desenvolvimento de:
- guidelines nacionais de restauro fluvial
- critérios de qualidade paisagística
5.5. Monitorização e avaliação
- Inclusão de indicadores:
- ecológicos
- paisagísticos
- sociais
- Avaliação da:
- qualidade espacial
- apropriação pelas comunidades
5.6. Financiamento e acesso
- Garantir que os instrumentos de financiamento:
- valorizam equipas multidisciplinares
- reconhecem o papel dos AP
- Promover:
- projectos-piloto liderados por AP
- inovação em soluções baseadas na natureza
6. DISPONIBILIDADE DA APAP
A APAP manifesta total disponibilidade para:
- colaborar com a APA e entidades públicas
- contribuir para definição de orientações técnicas
- apoiar a integração do PRO-RIOS nos instrumentos de OT
- participar em processos de capacitação técnica
7. CONCLUSÃO
O PRO-RIOS constitui uma oportunidade estruturante para o território nacional.
O seu impacto dependerá da capacidade de:
- ultrapassar uma visão sectorial
- integrar o restauro ecológico numa lógica de paisagem
- mobilizar competências multidisciplinares
A Arquitectura Paisagista é essencial para garantir que o restauro dos rios não é apenas ecológico, mas também territorial, cultural e socialmente qualificado.



